Jorge Barreto Xavier
NOTAS CRÍTICAS


DOS BRAÇOS DA NUA TERRA:
Na nossa contemporânea idade, o confronto quotidiano com o sentido da presença humana revela-se na intoxicante impossibilidade de saber verdadeiramente quem somos. Quem somos pessoalmente e quem somos coletivamente.

O sentido do eu hiperbolizou-se e ao mesmo tempo diluíu-se, e as pertenças societais tornaram-se acumulação identitária, de modo que o compósito que cada um de nós representa junto de si próprio e dos outros se encontra velado, escondido, e talvez ao mesmo tempo disperso, difícil de reunir sob a fórmula de uma resposta à pergunta – e tu, quem és?

Esta questão é essencial na determinação das circunstâncias políticas, económicas, culturais, religiosas deste momento da história humana. Ela é sobremaneira a pergunta a colocar aos chamados “europeus”, que no processo crítico sobre o seu próprio estatuto e sobre os valores em abstrato da liberdade e da igualdade reivindicaram a soberania do eu sobre a do Estado e a da liberdade de expressão sobre a coesão social.

Pagamos hoje, com alegria mas também com dor o preço deste caminho. Ele tem uma componente relevante nas considerações sobre o modo como a estética se coloca no nosso entorno.

No seu primeiro livro, de 1970, Giorgio Agamben promove uma reflexão sobre “a época estética da obra de arte”. O que se analisa é este tempo onde a obra de arte é colocada do lado do espetador, ou seja, visitada a partir do ponto de vista do espetador. Todavia, essa visita decorre no contexto discursivo do historiador de arte, do crítico, do conservador de museu, do curador – o espetador é uma instância moderada, orientada, condicionada pelo sistema estético, pelos códigos que determinam os modos de apropriação do ponto de vista do espetador.

De alguma forma, o artista está a mais nesta equação, pois acima de tudo valerá a interpretação, a crítica, a apropriação possível do artista. De algum modo, a obra de arte está fora desta equação, o que existe é a sua reificação pelos exercícios taxinómicos e topológicos de instâncias autoritativas externas ao criador da obra de arte.

Não sendo oportuno fazer aqui a genealogia do estatuto do artista na história ocidental, será certo dizer que o seu destaque e celebração enquanto instância de iniciativa já foi superior, assim como o seu reconhecimento enquanto lugar de  poder.

No “sistema artístico”, no “sistema estético”, a deslocação de poder para as mãos de agentes interpretativos e críticos, assim como para os dispositivos mercantis e comunicacionais transtorna a própria capacidade do artista se referenciar, pois essa referenciação depende muito da disposição de terceiros.

Refiro esta matéria para dizer que Moita Macedo deve ser defendido a partir do ponto de vista do artista. Ou seja, que em vez de olharmos para o que se diz sobre Moita Macedo, se deve olhar para o que diz Moita Macedo. E o que diz Moita Macedo de si próprio?

Antes da vida fui morte
Depois da morte fui vida
Cartão a marcar encontro
Sempre em ponto de partida
Recusa assente ao voltar
A estrada já percorrida
Igual na forma de estar
Lança igual à despedida
Pintei versos
Escrevi quadros
Movido pela ilusão
De ser pertença da terra
Ventre, presente e razão
De ser morte e de ser vida
No meu silêncio agitado
Do momento de ser hoje
Sem futuro e sem passado


Ele, que foi poeta, escultor, gravador, pintor, ilustrador, desenhador, ativista em defesa da liberdade de expressão num tempo em que esta era amordaçada; ele que foi artista em espaço de operários e talvez operário em espaço de artistas, ele diz-nos que o ponto de pressão que nos identifica como ser é hoje, não ontem, não amanhã. E que o momento irrenunciável do presente é impronunciável; e que escreve quando pinta e que pinta quando escreve. Pois quem assim se define bem diz que não se distingue em partes, mas que se distingue enquanto manifestação una. Afirma que em tudo o que faz, aí está. Que em tudo o que faz existe uma telúrica afirmação de pertença e de poder de criação (pertença da terra/ventre). E esta correlação entre o que somos e o que podemos só tem um momento de manifestação – agora.

Moita Macedo deixou que pelas suas mãos se expressasse o mundo, o seu mundo mas todo aquele do barro que nos molda em que nem sempre conseguimos enunciar apesar de nos enformar. Assim, direi que a sua obra é toda e não partes. Que os temas principais do seu trabalho plástico são elementos de um código, de uma linguagem, de um alfabeto, de um texto, de um discurso, que também se apresenta nos seus poemas, nas suas gravuras, nos seus barros ou marfins.

Assim, cada momento do seu percurso de artista é também um momento do seu percurso como homem e viceversa. E se cada objeto criado constitui parte do seu trabalho e pode ser lido autonomamente, numa referência a um dado momento, lugar, material ou técnica, o seu verdadeiro destino é ser lido nesse discurso maior - o seu caminho, a sua manifestação de vida, o seu manifesto em relação à vida.

Parte de um tempo, de uma família e de um grupo amigos e de artistas, Moita Macedo não exerceu um trabalho adjetivo para se promover como artista mas um trabalho substantivo de criação artística, menos preocupado com a sua celebração, mais preocupado com o sentido de todas as coisas, com o seu sentido como pessoa.

Independentemente do destino que as enciclopédias contemporâneas (analógicas ou digitais) lhe derem (bem poderíamos fazer através delas, ao lado da história da relevância, a história da irrelevância!), sabemos que ao olhar enquanto espetadores os seus trabalhos, eles nos olha nos olhos em cada um e em todos, e mais do que respostas, certamente nos coloca a pergunta – e tu, quem és?

Jorge Barreto Xavier
Secretário de Estado da Cultura do XIX Governo Constitucional